DEPOIS TEVE AQUELE PESADELO

     Eu estava, como sempre meio sonolenta, com aquela sensação de irrealidade tão persistente nos últimos dias. Vieram me dizer que estavam me levando para fazer um exame para saber ao certo o que havia de errado comigo. Eu fui levada de maca, olhando as luzes no teto até a sala de exame. 

    Estava frio. Eu estava só com aquela camisolinha amarrada atrás que usam na UTI. Lembro da sensação da mesa de exame dura contra as minhas costas. Tentei resistir um pouco quando me colocaram naquela horrível posição de frango assado.

    "Vamos lá, Senhora. É para o seu próprio bem. Lembra do que a gente conversou?"

    Não eu não lembro. Mas apesar da vergonha, cedi. Fechei os olhos.

    "Vamos ver o que temos aqui..." 

    Senti o espéculo gelado sento introduzido na minha vagina. Ouvi a voz do auxiliar: "Minha nossa! Que cheiro é esse?" 

    "Está tudo podre aqui dentro. Joga um pouco de soro, vamos lavar isso aqui." 

    Senti um calafrio quando o soro foi jogado e senti que mexiam dentro de mim. Ouvi os tinidos dos instrumentos no especulo de metal. "Isso. Mais aqui, por favor. Nossa! Deixa eu respirar um pouco! Tá bom. Mais um pouco agora." 

    Senti as mãos do médico remexendo dentro de mim, e depois percebi algo como um "tuff", como uma bola murcha que se fura e vi alguma coisa quente e realmente muito fedida escorrendo. "Agora sim, estamos chegando a algum lugar."

    Em pé ao lado da maca eu não conseguia ver os seus rostos. O auxiliar veio com uma mangueira e começou a esguichar lá dentro. E eu via aquela gosma verde nojenta jorrando de dentro do meu corpo como se fosse um cano de descarga de esgoto, o cheiro era insuportável. O auxiliar pega alguma coisa que saiu junto com aquele lodo. "Doutor, e isto aqui?" "Ah, é só o coração. Não serve para nada mesmo. Aliás, só atrapalha. Joga fora logo."

    Então as luzes se acenderam mostrando a imensa sala de cirurgia imaculadamente branca. "Pode ligar", disse o cirurgião já se encaminhando pela porta. O auxiliar se aproxima, desliga o sistema da anestesia e muda a posição da maca como uma cadeira. 

    "Doutor, não está funcionando. Eu já desliguei a anestesia mas ela ainda não está funcionando." 

    O cirurgião se volta e de lá mesmo da porta responde: "Ora os olhos estão abertos não estão?"                Aproxima-se um pouco: "Olhe para mim", A mulher muito magra, muito branca e enrugada olha para o médico. "Levante a mão." A mulher levanta. "Levante a outra". A mulher levanta. "Bata palmas". A mulher obedece. "Viu? Está funcionando perfeitamente agora", diz saindo novamente sem olhar para trás. 

    O auxiliar dá de ombros e continua arrumando a mulher para ser levada. Eu olho em volta. Tudo impecavelmente limpo. 

    Nem sinal do coração.

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